Quando o Laço de Trabalho se Torna Laço Amoroso: Manejo Psicanalítico e Políticas Corporativas

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  1. Introdução

Nas empresas contemporâneas, especialmente nas que adotam políticas rígidas de compliance e governança, a proibição explícita ou velada de relações amorosas entre colegas é cada vez mais comum. O argumento oficial costuma se apoiar em dois eixos: evitar conflitos de interesse e preservar a produtividade. No entanto, o que raramente se discute é que o local de trabalho é também um espaço privilegiado de encontro entre sujeitos, onde o desejo, a transferência e a alteridade circulam. A psicanálise pode oferecer um olhar que não apenas compreende os riscos, mas também reconhece as potencialidades de um laço amoroso nascido de um laço profissional.

  1. O Campo Transferencial no Trabalho

Lacan nos ensina que não há relação sexual que se inscreva no simbólico sem que seja mediada por significantes. No ambiente de trabalho, esses significantes são compartilhados: projetos, metas, problemas e soluções criam um campo simbólico comum. Esse campo, por vezes, catalisa encontros que tocam o Real do desejo, justamente porque ali se constroem laços de confiança e reconhecimento — elementos fundamentais para que uma relação possa ter base sólida.

  1. Quando “Dá Certo”

Embora muitas relações nascidas no trabalho naufraguem pela mistura confusa de papéis e pela dificuldade de separação entre o profissional e o pessoal, há casos em que esse tipo de vínculo se consolida. O que diferencia esses casos?

Simetria na posição de poder: relações assimétricas (chefe-subordinado) tendem a gerar mais riscos éticos e subjetivos. Já quando há relativa paridade hierárquica, a chance de um vínculo menos marcado pela lógica do poder é maior.

Clareza de fronteiras: os sujeitos conseguem, ainda que imperfeitamente, sustentar dois registros — o profissional e o íntimo — sem que um destrua o outro.

Capacidade de simbolizar conflitos: casais que conseguem falar do que os atravessa, sem interditar o discurso pelo medo da repercussão no trabalho, têm mais condições de sustentar o laço.

Reconhecimento social: mesmo diante de políticas restritivas, quando a relação é vista com legitimidade pelo grupo, a pressão externa tende a diminuir.

  1. As Políticas de Proibição: Entre o Controle e o Imaginário

A prática corporativa de proibir relacionamentos entre colegas parte, em grande parte, de um imaginário de controle total sobre o campo intersubjetivo do trabalho. Trata-se de uma tentativa de evitar riscos jurídicos, acusações de favorecimento e crises internas. No entanto, do ponto de vista psicanalítico, essa interdição absoluta é paradoxal: o desejo, como Lacan afirma, se estrutura justamente em torno da falta e da proibição. Muitas vezes, a regra reforça o erotismo latente, deslocando-o para formas menos visíveis, mais imaginárias e, por vezes, mais perigosas.

  1. Manejo Psicanalítico na Cultura Organizacional

O manejo adequado dessa realidade exige que a empresa supere o binarismo “permitido/proibido” e compreenda que o desejo não é domesticável por decreto. Uma política inteligente poderia incluir:

Códigos de conduta claros sobre conflito de interesses, mas que não criminalizem o afeto em si.

Espaços de diálogo: instâncias de RH ou mediação interna capazes de lidar com situações de forma confidencial e não punitiva.

Formação de lideranças para compreender a dimensão subjetiva das relações no trabalho, evitando abordagens moralistas ou persecutórias.

Mediação psicanalítica em casos de impasse, preservando tanto o vínculo profissional quanto a dignidade dos sujeitos.

  1. Considerações Éticas

Do ponto de vista ético, a empresa não deve se colocar no lugar de superego moral, mas sim no lugar de guardiã das condições para que o trabalho aconteça com respeito, segurança e liberdade. Isso implica reconhecer que o amor — quando não instrumentalizado — pode ser uma força produtiva e criativa. Muitos projetos e ideias nascem justamente do encontro intenso entre dois sujeitos que se reconhecem, no amor e no trabalho, como parceiros.

  1. Conclusão

A psicanálise pode ajudar as organizações a transitar de uma postura proibitiva para uma postura de manejo, reconhecendo que não se trata de controlar o desejo, mas de criar condições para que ele não destrua o campo de trabalho. Quando o laço amoroso, nascido do laço profissional, é sustentado pelo respeito às fronteiras, pela simetria e pelo reconhecimento mútuo, ele pode não apenas “dar certo”, mas também contribuir para a vitalidade da própria organização.