O Corpo como Campo de Batalha no Contemporâneo: Uma Leitura Lacaniana

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  1. Introdução

O corpo, na contemporaneidade, tornou-se um dos principais lugares de inscrição dos impasses do sujeito. Longe de ser apenas o suporte biológico da vida, ele se apresenta como superfície de investimento libidinal, vitrine identitária, território de reivindicação política e, simultaneamente, alvo de intervenções incessantes — médicas, estéticas, farmacológicas e digitais. Essa centralidade do corpo não é um fenômeno natural: ela responde a mutações no discurso social, que reorganizam a relação entre gozo, desejo e imagem.

A psicanálise lacaniana, ao articular o corpo como efeito de linguagem e como lugar de inscrição do gozo, permite compreender como, no presente, a experiência subjetiva é capturada por lógicas que demandam do corpo visibilidade, desempenho e constante modificação.

  1. O Corpo na Teoria de Lacan

Para Lacan, o corpo não é dado de antemão; ele é construído pela alienação na imagem e pelo nó com a linguagem. O estádio do espelho mostra que a unidade corporal é uma ficção sustentada pela imagem especular, que pacifica provisoriamente a experiência fragmentária inicial.

No entanto, esse corpo imaginário é atravessado pelo simbólico: o significante marca e mortifica o corpo, introduzindo uma perda irremediável. É justamente dessa perda que emerge o objeto a, resto irredutível que o discurso social tenta constantemente capturar e domesticar.

O corpo, portanto:

Imaginário: imagem unificada e sedutora, base da identificação.

Simbólico: corpo marcado pelo significante, recortado pela linguagem.

Real: corpo afetado por um gozo opaco, não simbolizável.

  1. Mutação Contemporânea: Do Corpo Marcado ao Corpo Editável

Historicamente, o corpo carregava marcas simbólicas que delimitavam seu lugar no laço social — sejam elas ritos, cicatrizes, signos religiosos ou inscrições culturais. Hoje, sob o discurso do capitalista, esse corpo é editável: plastificado, hormonizado, filtrado, quantificado, monitorado.

A lógica da aceleração e da mercadoria atinge o corpo em várias frentes:

Tecnologia: filtros de imagem, realidade aumentada, edição de fotos em tempo real.

Farmacologia: medicalização do humor, aumento da performance física e cognitiva.

Estética: cirurgias preventivas, protocolos de rejuvenescimento, modas corporais rápidas.

Quantificação: dispositivos de monitoramento (apps de sono, treino, alimentação) transformam o corpo em planilha.

O corpo, nesse cenário, é gerido como um projeto permanente de otimização, sem espaço para o acaso e o limite. A promessa é que qualquer insatisfação possa ser corrigida — promessa que sustenta a lógica do consumo.

  1. Novos Sintomas Corporais

Essa nova economia libidinal produz sintomas distintos dos que Freud descreveu no início do século XX:

Transtornos alimentares (anorexia, bulimia, compulsão alimentar) como formas de escrita no corpo do impossível de simbolizar.

Dismorfias corporais acentuadas pela comparação incessante em redes sociais.

Adições ao exercício e ao “bem-estar” como tentativas de controle absoluto sobre o corpo.

Automutilações e modificações extremas como formas de reinscrever o corpo no registro simbólico.

Do ponto de vista clínico, é preciso notar que o corpo, em muitos desses casos, não é apenas palco, mas ator principal do sintoma — um corpo que fala por meio de cortes, dietas radicais, treinos obsessivos, ou pela exposição controlada de sua imagem.

  1. Clínica com o Corpo no Contemporâneo

A prática psicanalítica hoje se confronta com pacientes cuja relação com o corpo é atravessada por:

Imediaticidade: o corpo deve responder rápido às demandas (cirurgia em semanas, resultado visível em dias).

Comparação permanente: a régua não é mais interna, mas global, construída pelo olhar digital do Outro.

Fragilidade identitária: o corpo é constantemente redesenhado para sustentar um eu instável.

O desafio para o analista é criar um espaço onde:

O corpo possa falar de outro modo que não pela imagem e pelo consumo.

A falta seja reinscrita, recolocando o sujeito diante de um desejo que não se confunde com o imperativo de gozar.

Haja possibilidade de sustentar o tempo da elaboração, em oposição à urgência da intervenção.

  1. Considerações Finais

O corpo, no contemporâneo, tornou-se um campo de batalha entre o gozo e o capital, entre a imagem e o real. A psicanálise, ao sustentar que o corpo não se reduz a uma máquina de desempenho nem a um produto estético, pode oferecer uma via de subversão dessa lógica: reinstalar o sujeito na experiência de seu próprio corpo como lugar de enigma, e não apenas de controle.

Nesse sentido, o trabalho clínico com o corpo hoje não é apenas terapêutico, mas político: resgatar o direito de o corpo não se prestar integralmente ao imperativo de visibilidade, desempenho e otimização — abrir espaço para que ele seja, também, um lugar de opacidade, silêncio e singularidade.