ECOANSIEDADE

3–4 minutos

O Mal-Estar Climático: Psicanálise e a Angústia diante do Futuro

  1. Introdução

O aquecimento global, a degradação ambiental e as crises ecológicas já não pertencem apenas ao campo das ciências naturais: elas habitam a vida psíquica cotidiana. Chamado de ecoansiedade, luto ecológico ou mal-estar climático, esse fenômeno traduz a experiência de viver sob a percepção constante de um futuro ameaçado.

A psicanálise lacaniana, ao lidar com a estrutura do desejo, da angústia e do gozo, pode oferecer chaves para compreender como essa nova forma de mal-estar se inscreve no sujeito e como ela reconfigura a relação com o tempo, com o Outro e com o real.

  1. Do Mal-Estar Freudiano ao Mal-Estar Climático

Freud, em O mal-estar na civilização (1930), já mostrava que o avanço da técnica não garante felicidade e que a civilização se constrói sobre a renúncia pulsional. No entanto, o mal-estar climático não se apoia na renúncia, mas na percepção de que o próprio solo simbólico que sustenta o mundo pode desaparecer.

Trata-se de uma mutação importante:

No mal-estar freudiano, havia confiança na continuidade da civilização, ainda que ela fosse custosa.

No mal-estar climático, a continuidade do mundo humano é posta em questão, produzindo um tipo de angústia estruturalmente ligada ao real do impossível.

  1. Lacan e o Real da Catástrofe

Lacan distingue o real como aquilo que retorna sempre ao mesmo lugar e não cessa de não se inscrever. A catástrofe ambiental se aproxima dessa definição: mesmo diante de previsões, gráficos e alertas, ela permanece como algo que escapa à simbolização plena — e, justamente por isso, retorna de forma repetitiva na mídia, no discurso político e na fantasia.

Essa condição produz duas reações clínicas típicas:

Paralisia angustiada: o sujeito fica imobilizado diante da percepção da catástrofe, com dificuldade de investir no futuro.

Ativismo compulsivo: uma tentativa de suturar a falta e expulsar a angústia por meio de ação incessante, que pode esgotar e adoecer.

  1. Gozo, Consumo e Desmentido

O discurso do capitalista — que Lacan descreve no Seminário 17 — opera negando a castração e prometendo satisfação sem perda. No campo ambiental, essa lógica se traduz na crença de que a crise pode ser resolvida sem alterar os modos de gozo:

“Consuma de forma sustentável e tudo ficará bem.”

“Basta inovar tecnologicamente e manteremos nosso estilo de vida.”

Esse desmentido (Verleugnung) cria um duplo vínculo: reconhece a crise, mas recusa a perda necessária para enfrentá-la. Clinicamente, ele reforça sintomas de culpa difusa, ansiedade e sentimentos de impotência.

  1. A Clínica da Angústia Climática

Na análise, a angústia diante do colapso ambiental se manifesta de formas variadas:

Pesadelos recorrentes com cenários apocalípticos.

Desmotivação crônica para projetos de longo prazo.

Fascínio mórbido por notícias de desastre.

Transferência fragilizada pelo sentimento de que nada tem sentido se “o mundo vai acabar”.

O manejo clínico exige:

Reconhecer que a angústia não é apenas reação a um dado objetivo, mas efeito da confrontação com um real inassimilável.

Restituir ao sujeito a possibilidade de desejar mesmo diante da incerteza.

Trabalhar o deslocamento do gozo mortífero da repetição de cenários catastróficos para uma posição mais implicada e singular.

  1. Considerações Finais

O mal-estar climático é uma das formas mais emblemáticas do encontro contemporâneo com o real. Ele convoca a psicanálise a sustentar o espaço onde a angústia não seja anestesiada nem transformada em slogan, mas tratada como índice de uma verdade que o sujeito precisa atravessar.

A aposta da psicanálise, nesse campo, é de que mesmo diante do colapso possível, o desejo pode encontrar saídas — não como adaptação, mas como invenção singular, que permita habitar o tempo presente sem ceder ao desespero nem ao gozo paralisante.