
- Introdução: O Real como Problema Clínico
Na psicanálise lacaniana, o Real não é o “mundo real” no sentido empírico, mas aquilo que escapa à simbolização e à captura imaginária. É o impossível de dizer, o que retorna sempre ao mesmo lugar, o ponto onde o discurso vacila.
Na clínica, o Real se apresenta como furo na trama significante — seja na forma de angústia sem nome, sintoma opaco ou experiências-limite como o trauma. Lidar com o Real, portanto, não significa “eliminá-lo”, mas criar condições de ancoragem, deslocamento ou invenção frente a ele. - Três eixos teóricos para a clínica do Real
Para pensar modelos clínicos, podemos articular três grandes vertentes na psicanálise lacaniana, cada uma com sua estratégia predominante frente ao Real.
2.1. O Modelo Clássico da Neurose: Interpretar para Simbolizar
Referência: Lacan dos Seminários 1 a 11.
Estratégia: O Real, aqui, é tratado via simbolização suplementar. A interpretação visa deslocar o sujeito na cadeia significante, recolocando o sintoma em rede com o desejo.
Ferramenta central: A interpretação enigmática, que não traduz o sentido mas convoca o sujeito a produzir o seu.
Limite: Em certas estruturas, o excesso do Real não se deixa recobrir pelo simbólico (como nas psicoses ou no sofrimento contemporâneo de gozo desregulado).
2.2. O Modelo do Sinthoma: Amarrar para Suportar
Referência: Lacan do Seminário 23.
Estratégia: Quando o simbólico não consegue conter o Real, aposta-se na invenção singular que amarra o Real, o simbólico e o imaginário. O sinthoma não se interpreta para dissolver, mas para estabilizar.
Ferramenta central: Nomeação e legitimação do arranjo inventivo do sujeito (arte, rituais, modos idiossincráticos de viver).
Limite: Requer que o sujeito já tenha, ou possa criar, um recurso próprio para ancorar o gozo.
2.3. O Modelo do Campo Gozante: Transitar para Criar
Referência: Proposições mais recentes (pós-Lacan) que ampliam a ideia de saída pela invenção, aproximando clínica e política do gozo.
Estratégia: Em vez de buscar “normalizar” ou “adaptar” o sujeito, aposta-se no uso do gozo como força criadora. A clínica se torna um espaço de experimentação, não apenas de deciframento.
Ferramenta central: Construção de novos campos de experiência (projetos, coletivos, vínculos, performances) onde o sujeito possa deslocar o gozo mortífero para formas vivíveis ou produtivas.
Limite: Depende de um analista capaz de sustentar um lugar de não-saber e suportar a contingência sem pressa de concluir.
- Intervenções possíveis frente ao Real
Independentemente do modelo, podemos agrupar as manobras clínicas em três modalidades complementares:
Nomear o impossível – Dar lugar ao que não se encaixa no sentido, não para explicá-lo, mas para reconhecê-lo como parte do campo subjetivo.
Criar bordas – Dispositivos, horários, objetos, rituais ou pactos que funcionam como “costuras” entre Real e Simbólico.
Inventar saídas – Estimular a construção de novos circuitos de gozo menos destrutivos, aproveitando a potência criativa do sintoma.
- O desafio contemporâneo: excesso de Real
No mundo hipermoderno, o Real se apresenta de forma mais crua e menos mediada — via imagens violentas, dados brutos, diagnósticos rápidos e discursos técnicos que dispensam a experiência subjetiva.
Isso exige da clínica:
Maior tolerância à opacidade — o analista não deve se apressar em “explicar” tudo.
Atenção ao corpo — o Real retorna muitas vezes como fenômeno somático ou de ato.
Abertura interdisciplinar — não para diluir a psicanálise, mas para dialogar com práticas que ajudem a sustentar o sujeito frente ao excesso.
- Conclusão: Lidar não é resolver
O Real é estruturalmente impossível de ser totalmente tratado. O que a clínica pode oferecer são modos singulares de arranjo, seja pela simbolização, pela invenção de um sinthoma, ou pela abertura de um campo gozante.
O analista, longe de ser um “controlador de sintomas”, atua como testemunha e parceiro na invenção, sustentando o ponto de impossível para que, a partir dele, algo novo possa emergir.