COVID-19 e o Aumento dos Transtornos Psiquiátricos: Uma Leitura Psicanalítica

3–4 minutos

1. Introdução: Uma Pandemia que Escapou ao Campo Médico

A pandemia da COVID-19 foi inicialmente tratada como uma crise médico-sanitária, cujo foco era conter o contágio e reduzir a mortalidade. No entanto, à medida que o vírus se espalhava, tornou-se evidente que estávamos diante de um fenômeno que ultrapassava o campo da medicina. O confinamento, a interrupção de rotinas, o medo constante e a experiência generalizada de perda — de pessoas, de projetos, de estabilidade econômica — produziram efeitos massivos na saúde mental.
A explosão de diagnósticos de ansiedade, depressão, transtornos do sono, abuso de substâncias e mesmo quadros psicóticos não pode ser lida apenas sob a ótica epidemiológica. É preciso, como propõe a psicanálise, investigar o que o real da pandemia fez irromper no sujeito.


2. O Real Pandêmico: Incerteza e Angústia

Para Lacan, o real é aquilo que escapa à simbolização, o que não pode ser totalmente nomeado nem previsto. A COVID-19 introduziu, no tecido social, um real global e compartilhado: não havia garantias, previsões confiáveis ou protocolos definitivos.
Essa experiência de incerteza generalizada deslocou o sujeito da ilusão de controle que, até então, era sustentada pela ciência, pela economia e pela rotina. A angústia, nesse contexto, não surgiu apenas do medo da morte, mas do colapso de coordenadas simbólicas que davam sentido ao dia a dia.


3. Isolamento e Desamparo

O isolamento social, necessário para conter o vírus, trouxe à superfície a condição de desamparo (Hilflosigkeit) descrita por Freud: a dependência fundamental do outro para a sobrevivência física e psíquica.
Para muitos, o afastamento físico significou perda de laços afetivos de sustentação. Para outros, a convivência forçada intensificou conflitos latentes, trazendo à tona violência doméstica, crises conjugais e rompimentos.
O desamparo pandêmico não foi apenas físico — foi simbólico, pois colocou em xeque a suposição de que haveria sempre um Outro (Estado, ciência, família) capaz de oferecer segurança.


4. O Discurso do Mestre em Crise e o Discurso Capitalista em Excesso

Durante a pandemia, o discurso do mestre — que ordena e regula — apresentou falhas: governos desorientados, autoridades científicas em desacordo e medidas contraditórias abalaram a confiança social.
No vazio deixado por esse enfraquecimento, o discurso capitalista acelerou: explodiram o consumo online, a hiperconexão e o imperativo de produtividade mesmo em quarentena. Essa lógica intensificou a cobrança subjetiva: mesmo diante do caos, era preciso ser eficiente, reinventar-se e “aproveitar o tempo”.
O resultado foi um aumento de quadros de exaustão emocional, burnout e sensação de inadequação.


5. O Sintoma Pandêmico e as Novas Formas de Sofrimento

Na clínica, os efeitos da COVID-19 se manifestaram de maneiras diversas:

  • Transtornos de ansiedade exacerbados pela vigilância constante do corpo e pelo medo do contágio.
  • Depressões agravadas pela ruptura de projetos e pela sensação de futilidade.
  • Transtornos alimentares surgindo ou se intensificando, como formas de tentar retomar controle sobre o corpo.
  • Uso abusivo de substâncias como tentativa de amortecer o excesso de gozo e a presença opressiva do real.
  • Quadros psicóticos deflagrados em sujeitos que, já fragilizados, encontraram na pandemia a queda definitiva de referências simbólicas.

6. A Função do Analista no Pós-Pandemia

Se a psiquiatria responde ao sofrimento com diagnósticos e protocolos — importantes e necessários —, a psicanálise oferece um espaço onde o sujeito pode dizer o indizível.
O papel do analista, nesse contexto, não é “curar o trauma pandêmico” como se este pudesse ser apagado, mas sustentar um lugar onde o sujeito possa dar um contorno simbólico ao que viveu. Trata-se de possibilitar que cada um encontre, a partir de sua própria singularidade, uma forma de reinscrever o que lhe aconteceu.


7. Considerações Finais: Do Trauma Coletivo à Elaboração Singular

A pandemia da COVID-19 funcionou como um acontecimento traumático global, mas sua inscrição é singular em cada sujeito. O aumento dos transtornos psiquiátricos não é apenas efeito de um vírus, mas da forma como o real encontrou cada um — e como cada um pôde ou não simbolizá-lo.
O desafio, agora, é não reduzir a crise a um episódio a ser esquecido, mas reconhecê-la como parte da narrativa subjetiva e coletiva. É nessa intersecção — entre história e desejo — que a psicanálise pode contribuir para uma nova forma de estar no mundo pós-pandemia.

Contém: Microscopic virus structure images laboratory setting background with empty space for text