O TRISTE FIM DA MAIORIA DOS ENCONTROS CLANDESTINOS ENTRE COLEGAS DE TRABALHO

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 O TRISTE FIM DA MAIORIA DOS ENCONTROS CLANDESTINOS ENTRE COLEGAS DE TRABALHO: O QUE NINGUÉM DIZ, MAS TODOS SENTEM 

O TRISTE FIM DA MAIORIA DOS ENCONTROS CLANDESTINOS ENTRE COLEGAS DE TRABALHO: O QUE NINGUÉM DIZ, MAS TODOS SENTEM

Começa com um olhar cúmplice na hora do café. Um elogio fora de contexto, um convite “inocente” para o happy hour. Aos poucos, o ambiente de trabalho – onde tudo deveria ser profissional e previsível – vira palco de um jogo de sedução clandestina. A adrenalina do segredo parece irresistível. Mas o que começa como um refúgio excitante, frequentemente termina em um silêncio constrangedor entre dois estranhos que dividem a mesma sala de reunião.

Os encontros clandestinos entre colegas de trabalho são um tabu corporativo. Todos sabem que acontecem, mas poucos falam sobre eles com maturidade. Prefere-se a política do “não saber”, como se o simples silêncio pudesse neutralizar os efeitos psíquicos e institucionais dessas relações. No entanto, a psicanálise nos ensina que o desejo não se deixa domesticar pela etiqueta organizacional.

O DESEJO QUE ATRAVESSA O PROFISSIONALISMO

O local de trabalho é, antes de tudo, um espaço onde laços sociais se constroem. Nele circulam reconhecimento, rivalidade, admiração, idealizações e, inevitavelmente, desejo. A convivência prolongada, o compartilhamento de projetos, a intimidade forçada das longas horas juntos: tudo isso cria um caldo propício para que o desejo encontre brechas.

Mas, como nos lembra Lacan, “não há relação sexual”. Ou seja, não existe um encaixe perfeito entre dois sujeitos. As relações clandestinas surgem, muitas vezes, como tentativas de suturar essa falta, criando uma ilusão de completude que só se sustenta no segredo.

O CURTO-CIRCUITO ENTRE O PRAZER E A CULPA

No início, o segredo excita. A troca de olhares, as mensagens cifradas, os encontros furtivos alimentam o gozo do proibido. Mas esse circuito é insustentável. Cedo ou tarde, o desejo dá lugar à culpa, ao medo da exposição, à paranoia da descoberta. E quando o jogo perde sua graça, o que resta é um cenário de desgaste emocional, afastamento e deterioração do ambiente de trabalho.

O que deveria ser um “alívio” frente à dureza do cotidiano profissional transforma-se em um fardo: um vínculo pesado, difícil de sustentar, onde ambos se tornam prisioneiros do próprio segredo.

AS CONSEQUÊNCIAS SILENCIOSAS

O fim de um encontro clandestino raramente é pacífico. Mesmo que ambos “sigam em frente”, o laço residual continua a operar. A simples presença do outro, agora desprovida da excitação do segredo, torna-se incômoda. Surge o evitamento, a tensão nos corredores, a quebra da harmonia das equipes. O outro vira um corpo estranho no espaço comum.

E a empresa, que finge não ver, muitas vezes paga um preço alto em termos de clima organizacional, produtividade e coesão de equipe.

O QUE FAZER?

Não se trata de condenar ou moralizar os encontros entre colegas de trabalho. O desejo é parte constituinte da subjetividade e não pode ser interditado por normas e códigos de conduta. O problema não é o encontro em si, mas a cegueira institucional diante da existência do desejo e das formas como ele circula.

O desafio não está em proibir ou reprimir, mas em criar uma cultura organizacional que permita falar do desejo sem hipocrisia. Um espaço onde se possa nomear as dinâmicas subjetivas, compreender seus efeitos e elaborar uma ética do desejo — e não uma ética do gozo.

Afinal, o desejo não é um problema a ser eliminado. Ele é a força que nos move, que nos inquieta, que nos faz criar. Mas quando negado, ele retorna pela via do sintoma, sabotando os próprios laços que poderiam ser produtivos.

FECHAMENTO

O triste fim da maioria dos encontros clandestinos no trabalho revela uma verdade incômoda: o ambiente corporativo, ao tentar higienizar as relações humanas, acaba cultivando uma cultura de silêncios e repetições.

Enquanto as empresas continuarem a fingir que o desejo não existe, esses encontros seguirão acontecendo — e continuarão terminando da pior maneira possível.

O que propomos aqui não é a ingenuidade de querer regulamentar o desejo, mas a coragem de reconhecê-lo e aprender a lidar com ele de forma ética e responsável.